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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Olhos de Cigana



Não é a primeira vez que nossos olhos se cruzam,
Aquele olhar faminto e ousado.
De quem fala com o olhar,
De quem intimida.

Não que aqueles olhos verdes despertem meus temores,
Mas sua mão alcançou a minha na praça, a algum tempo atrás.
Quando recuei, lançou-me um olhar lascivo, afrontador,
Inesquecível.

Hoje o restaurante está cheio,
Coberto pelos burburinhos dos seus clientes.
O único lugar vago era próximo ao dela,
Da cigana dos olhos verdes e sua criança.

Um único prato
Para duas bocas,
Duas bocas que falam o que não posso identificar,
Um único garfo, e uma criança a cantar.

Me perdi naquela cena,
Encaro meu almoço.
E mesmo assim seus olhos se voltaram para mim,
E um certo mistério pairou pelo ar.

Não sei de onde veio,
Para onde está indo
E se sua criança deveras matou a fome.
Me perco neste devaneio, no olhar que consome.

Seu olhar familiar me intriga
Seu mistério revela talvez que nos conhecemos.
Mas de onde?
Aqueles segundos que param tudo por um instante,
No instante em que nossos olhos se cruzam.

Quem pode enfrentar os olhos verdes da cigana?
Quem revelará seus mistérios?
Quem sou eu para questioná-los?
Deveras sente o mesmo que eu sinto quando nos entreolhamos.

Imagino por instantes ser minha cisma,
Porque se destaca na multidão.
Penso também em quantas veze
Alguém também intimidou-se com ela.

Nunca mais a vi,
Nem seu rastro, nem sua criança.
Talvez esteja no meio de alguma dança,
Ou alguém lhe convenceu a partir.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Mundo de Mentir@s

Meu primeiro conto:



Maria estava ali mais uma vez com o celular na mão, sorria e chorava ao mesmo tempo, afinal era aquilo mesmo que ela queria; fez a sua escolha inicial e acreditava que não se arrependeria, a sua vontade era esta, sempre foi e nunca voltaria atrás.

Na tela principal do telefone ela contemplava aquela foto de olhar sedutor de um jovem de meia idade publicada numa rede social, era um cara comum, e suas fotos pareciam mesmo de uma pessoa normal pacata, mas não era pobre. Tinha algumas fotos viajando em lugares tão lindos, e se imaginava passeando com ele, cruzando estradas e cantando em outras línguas; suas conversas pelo whatsapp ainda estão gravadas enquanto se lembrava de o quanto ele dizia que a amava.

Não sabe se ainda a ama, e talvez ela não merecesse mesmo este amor, na verdade sabia que não merecia. Relendo e-mails apaixonados que ele tinha feito especialmente pra ela, haviam marcado inúmeros encontros, mas ela nunca foi; Pedro nunca desistiu do seu sonhado encontro, e alimentava a esperança de viver com ela um grande amor.

Mas um grande problema começou a atormentar a vida de Maria, ela também se apaixonou, o que incomodava era como Pedro a tinha visto; ela havia criado um perfil falso para extorquir homens de meia idade, como já havia feito antes tantas outras vezes, e tinha atingido seu objetivo porque ele havia pago todas as suas contas.

Ela continuava alimentando toda a paixão que carregava por ele, mas sabia que ele jamais a perdoaria se contasse toda verdade. Com o celular na mão e uma carteira de cigarros, a cada tragada uma nova lágrima, sabia que tinha caído na própria rede de mentiras, e despedaçado o próprio coração.

Foi quando Maria simplesmente deixou de falar com Pedro, eles tinham mantido contato por tempo demais, o nome Fake de Maria era Ana Júlia e na foto parecia pelo menos dez anos mais nova. Poxa vida ele nunca percebeu que era nome de uma música? Que droga, homens não costumam reparar em detalhes, não reparou em fotos com as mesmas roupas e mesmas maquiagens e tantas coisas repetidas que mandava pra ele – ela pensava enquanto tragava mais uma vez. Então decidiu que não falaria mais com Pedro, aceitaria seu destino porque foi isso o que buscou e apagou os contatos, simplesmente guardou suas fotos para olhar toda vez que se sentisse triste e pensar que alguém a ama.

Pedro percebeu seu afastamento, e também recuou, ele ficou na expectativa de um simples olá que nunca mais chegou. Pegou seu celular e jogou na parede, junto com tudo o que restava de lembranças e contatos de Ana Júlia, e por amor preferiu nunca mais falar com ela também e a bloqueou, antes que ela percebesse que ele não era mais um homem viril de meia idade e encarou seu rosto enrugado em frente ao espelho e chorou.


Maria mesmo deprimida, agora era Camila, atualizando as novas fotos e cultivando novos amigos virtuais para que façam as suas vontades. Pedro mesmo sabendo da idade que tem, ainda gostava das suas fotos antigas e continuou conversando com outras garotas que ele considerava bonitas e que o adicionavam de tempos em tempos. Eles nunca mais foram os mesmos, continuavam alimentando uma secreta paixão que ao longo dos anos o saber que alguém os amava em algum lugar do mundo os confortava.